Thursday, December 13, 2007
- O seu problema... Que ódio. Você se impõe. Como assim... você impõe. Não precisa dizer que não diz nada, mas dá pra ver. Dá pra ver, dizem que um olhar vale mais que mil palavras. Fala. Não vira as costas pra mim, porra!
Eu disse isso e ele só virou e foi embora. Eu tinha mudado a cama de lugar e deixei um lençol no chão, ele preferiu dormir no lençol. No chão!
Você não está bem. Não, não estava. Foi a primeira vez na vida que julgamos a estabilidade da sua razão.
- Quando foi que isso aconteceu? Quando, em que época, por quê?
Ela montou uma arma com toda sua raiva e frustrações e jogou nele, que provavelmente não tinha nada a ver com a história.
Esquizofrenia? Excessos.
- Não vira as costas pra mim, porra!!!
Ele morreu.
- Minha filha... por que diabos você matou seu gato?
Respira fundo, você não está bem. Você confundiu as coisas, quem morreu foi ela. Pulou da sacada porque viu uma piscina de bolinhas verdes e roxas. Na verdade tinha uma cerca de estacas de madeira, bem pontudas. E não era uma sacada, era uma mansão de três andares.
- O que você disse?
Friday, November 23, 2007
Sunday, November 11, 2007
Choose a job.
Choose a career.
Choose a family.
Choose a fucking big television!
Choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance.Choose fixed interest mortgage repayments.Choose a starter home.
Choose your friends.Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics.Choose diy and wondering who the fuck you are on a Sunday morning.Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrasment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself. Choose your future. Choose life. But why would I want to do a thing like that?
I chose no to choose life..I chose something else.And the reasons?
There are no reasons.
Trainspotting (filme)
Saturday, November 10, 2007
Thursday, October 25, 2007
2- Crie um ambiente detalhado e sofisticado, com toques rústicos e românticos. Com vários presentes da tecnologia pra controlar temperatura, umidade, música de fundo, claridade.
3- Crie uma situação dramática de um encontro entre você e a imagem.
4- Crie frases de efeito, caras, bocas, reações.
5- Crie variações de tudo o que você criou.
6- Crie uma nova situação pra suceder essa.
7- Crie novas reações pras situações verdadeiras onde vc se encontra com a pessoa real, mas na condição da imagem.
8- Crie variações das situações reais que você vive, exatamente no momento em que você as vive.
9- Crie possibilidades, planos pro seu futuro tendo como base todas as imagens que mais te agradaram acima.
10- Pratique esses exercícios em tempo integral até que você se desligue completamente do que está de fato acontecendo.
Resultado: Você aprende a realmente viver de sonhos, suas relações com as pessoas de verdade irão desaparecer aos poucos, você perde o controle sobre a sua vida (isso inclui presente e futuro). E se você fizer direito, vai 'viver' os momentos mais lindos e intensos da sua vida. Mas é tudo mentira.
Tuesday, October 23, 2007
Você quer saber o que tive com seu namorado. No começo ele era só seu amigo. Há anos seu amigo, sempre ao seu lado, mas te amando em segredo. Eu vim depois na sua vida e na dele. Daí aconteceu o que aconteceu entre nós duas. Já leu o conto ‘Frederico Paciência’ do Mário de Andrade? Não? É mais ou menos assim: o Juca conhece o Frederico, que no início é um cara lindo, maravilhoso, seguro, poderoso, etc; enquanto o primeiro é fraco e inseguro. Ao meu ver é como se o Juca fosse um vampiro, que ao longo do conto suga Frederico, deixando “só a capa” como dizem. Claro que isso tudo pode ser só impressão minha, o que é outra coisa bem estranha, se eu dissesse mais o que penso seria menos surpreendente. E não é surpreendente de uma forma positiva nunca.
O conto do Mário. Bom, não sei como explicar, mas no começo eu era o Juca. Depois me tornei Frederico e você Juca com dois Fredericos: eu e ele. Cada minuto perto de você era tão bom e fazia tão mal que eu me revezava em te classificar como sagrada ou infernal. Você é um poço. Mais Fredericos e você ainda com sede, sempre com sede e olhos chorosos por mais. E todo mundo se apaixona por essa falsa carência. Ta difícil de entender ainda.
Pra mim foi fácil, demorou um ano? Mas foi fácil e divertido esse draminha todo. E foi cansativo. Mas vendo de fora, você fazer com ele, pareceu tão cruel. Poxa, ele era tão legal. E você sacaneando o cara toda vez que a gente saía! Ficava dando esperança, brincando e ele lá sofrendo. Há quantos anos você faz isso? E ele já tinha problemas demais pra ter que agüentar mais esse.
Falei pra ele te contar tudo de uma vez, pensei que você fosse fugir como sempre. Daí ele desencanaria de uma vez e você ficaria sozinha. Sem ninguém pra brincar, pelo menos por um tempo. Por que diabos você ficou com ele? E depois de tudo, como foi que ele te quis?
Pois é, tudo isso me deixou incomodada. É incrível como umas coisas insignificantes me incomodam profundamente. É como uma pedra pequena no sapato, que apesar de ser pequena incomoda horrores! Vocês dois juntos começaram a incomodar bastante. Não consegui descobrir se era ciúmes de você, dele ou dos dois. Provavelmente essa angústia toda era pelo simples fato de eu não concordar.
Eu tinha comprado um remédio bem forte pra barata. Tava em casa, sem nada pra fazer, tomando vinho. Desde pequena misturo coisas pra ver se dá reação ou só pra misturar mesmo. Também tenho mania de mexer com fogo. Mas foi só isso. Pequei o veneno e misturei com um pouco de vinho.
Ele tava passando por lá, foi o que disse. Entrou, conversamos, fui ao banheiro. Ele não bebe, né?! Bebeu a taça todinha. Ninguém duvidou, claro. Mas o que ele foi fazer lá? Aí vem essa parte mais terrível. Ele te viu com outro cara. Que coisa! Depois de tudo você teve a cara de pau de trair!
Isso ta parecendo filme, né?! Pra mim, a responsável pela morte dele é você. E foi você quem chorou no enterro. Eu não entendo muito bem esse tipo de atitude. Você maltrata e acha ruim quando perde?! Que absurdo. Dizem que é típico, eu não consigo achar essas coisas normais. Acho péssimo.
Eu consigo te deixar imóvel com essa agulha e ninguém sabe que eu mexo com isso. Mas a situação entrega o homicídio. Agora que eu comecei, seria estranho não terminar. Provavelmente você só vai ficar com sono por conta do gás. Eu tenho álibi, ou dinheiro, dá na mesma.
Então, só pra você saber, eu não faria nada disso se eu realmente não acreditasse que é para o bem geral. É uma forma de evitar mais coisas ruins. Cortar o mal pela raiz, sabe?! Me incomoda o risco que eu corro, mas eu sou generosa. E rica.
Linda, isso vai ser melhor pra todo mundo. Beijo. Eu acho que ainda te amo. Tchau, linda.
(quase uma piada interna. uhul!)
Sunday, October 14, 2007
Saturday, October 13, 2007
Sunday, October 07, 2007
Ao levantar, o calor da manhã abraçou seu corpo e sua alma. Ela transbordava auto-confiança, determinação, poder e desejo. Desejava, com água na boca, tudo o que via pela frente, num desespero insano de consumir o mundo tornando-se o todo. O ar trazia a sensação de que agora ela deixaria de ser um elemento de fora do círculo para se tornar o eixo dele. Ela respirava esse ar como se fosse acabar a qualquer momento. E se enchia de tudo isso.
O sabonete deslizava pela sua pele numa maciez invejável. Ela sentia tudo, desejando a si como ou mais que qualquer um que realmente a visse desejaria. A água lavava o plano físico e o espiritual, levando consigo qualquer vestígio de insegurança que poderia existir.
Tudo era novo. Aquela sensação de inclusão no mundo que invadiu seu quarto para levá-la pra fora era o que mais emocionava. Sentiu o reconhecimento da sua importância nascendo com o sol.
Andava na rua sorrindo, com o olhar voltado para dentro, observando o orgulho de ser quem era. Ansiosa por sua chegada, imaginava variações detalhadas dessa cena para se distrair ou se concentrar na sensação gostosa. Quem ela encontraria antes de chegar, com quem ela entraria conversando, quem se levantaria para lhe dar um abraço de bom dia, quem confiaria assuntos pessoais mostrando confiança.
- Bom dia!- ele diria.
- Bom dia!- ela, com um sorriso.
- Sonhei com você...
- Sério?! Como foi?
- Não me lembro direito, mas acordei com saudades. O que vai fazer hoje?
- Acho que nada.
- Vamos sair! Eu quero falar com você, posso te ligar?
- Claro.
Ele estaria apaixonado. Aquele tipo de paixão que faz a pessoa segurar o seu rosto com as mãos espalmadas e dizer "você é minha vida" ou "eu não aguento passar mais um minuto longe de você", isso antes de um beijo com abraço apertado daqueles "você não vai mais embora".
Ela se sentou na cadeira imaginando os dois se vendo em público, fingindo que não tinham nada um com o outro. Imaginou os olhares intensos de um segundo e a adrenalina desse jogo delicioso. Imaginou a vontade escondida de que a aula chegasse ao fim para poderem sair dali e se abraçarem por horas. Imaginava uma daquelas discussões bobas de ciúmes "cala a boca! pára! você tem que entender que eu sou louco por você e não consigo lidar com a idéia de te perder! eu não consigo!". Depois se beijariam, se amariam, tomariam uma taça de vinho tinto e conversariam o resto da noite sendo acariciados pelo vento. Dormiriam sem perceber, deitados no sofá-cama com a tevê ligada num filme francês. No outro dia se comportariam como se não existisse nada além da sala de aula, se olhariam discretamente pelos corredores. Pensariam um no outro nos momentos possíveis e se encontrariam novamente no plano dos sonhos. E o tempo trataria de legalizar sua relação, podendo enfim sair e viajar juntos.
-Bom dia, gente. - ele chegou.
-Bom dia, professor.
Ela se deu conta de que chegou e iria embora sem ser notada. Refez a manhã rapidamente e não se lembrava de ter ouvido algum cumprimento antes desse. Olhou em volta e todos conversavam e sorriam entre si. Ela estava no canto, sozinha, com o semblante esquizofrênico de costume. Doeu um pouco a queda da sua auto-confiança, doía voltar a odiar cada centímetro quadrado/cúbico de si e cada unidade de medida da sua alma podre. Decidiu que voltar a sonhar, apesar de insensato, era mais conveniente.
O filme de drama romântico mais intenso que ela viveu passou naqueles cem minutos das duas primeiras aulas com o professor. Sorria, ficava séria, os olhos brilhavam numa variação de sentimentos explícitos e ela parecia uma espécie de louca sentada na cadeira separada.
Thursday, August 30, 2007
Clara deitou-se as onze e dezoito na segunda-feira. Sabia que teria aula bem cedo no outro dia, mas não sentia sono. Pensou em ler o livro que cairia na prova e por algum motivo ela não havia terminado de ler, mas não conseguia se levantar. Seu corpo estava pesado e preso à cama. Seus olhos procuravam incansavelmente algo no teto branco e limpo, mas não encontravam nem as sombras projetadas pela luz do corredor.
Seu dia foi normal. Acordou e marcou presença física em todas as seis aulas de cinqüenta minutos, além do recreio. Olhou atentamente para todos os professores enquanto falavam, copiou as matérias do quadro, ouviu todas as palavras que entravam e passavam pelo aparelho auditivo sem efeito algum. Falou com os amigos, pensou em coisas engraçadas e legais para dizer e não disse nada que pudesse gerar uma conversa de fato. Então, como em todos os dias, nos intervalos e no recreio deitou a cabeça sobre a carteira e tentou dormir.
Ao chegar em casa, Clara esqueceu tudo que lhe acontecera pela manhã, como de costume. Ela havia criado a teoria de que seu cérebro era seletivo em relação às lembranças: se não fosse algo que chamasse muita atenção, sumiria da memória. Claro que muita coisa ainda sobrava, mas esse pensamento ajudava a justificar pra si mesma o motivo de esquecer praticamente tudo que acontece durante o dia. E era só pra si mesma que ela justificava, já que ninguém levaria essa história a sério. E nunca fazia bem compartilhar esses acontecimentos já que todos julgavam falta de interesse, sendo que nem todos o faziam em voz alta.
Ela não conseguia dormir nem conseguia se levantar da cama. Algo de diferente tinha acontecido, mas ela não conseguia lembrar. Procurou por horas com os olhos fixados no teto até que se esqueceu de pensar no que deveria estar pensando. Agora ela só conseguia ver o teto: grande, branco, limpo, homogêneo. Tentou descobrir o porquê de estar ali deitada na cama já de madrugada sem dormir. Tentou achar o motivo daquela falta de ar, como se um carro estivesse pressionando seu peito; ou a razão pela qual sentia algo de muito estranho na garganta, como se precisasse gritar. Por algum tempo ela sentiu raiva. Então fechou os olhos e tentou dormir.
O relógio marcava três da manhã quando ela levantou num impulso violento. Seus olhos doíam, como uma câimbra por tê-los forçado a ficarem fechados. Ela não sabia o que estava acontecendo, não se lembrava muito bem do seu dia. Foi até a cozinha tomar um copo com água quando viu seus materiais escolares em cima da mesa. Sentiu um frio na barriga ao lembrar das provas para as quais deveria ter estudado. Os materiais estavam intocados. Tomou um gole de água e jogou o resto fora ao constatar a completa falta de sede.
Voltou para o quarto sem olhar para a mesa, pensando nas provas. Aquela sensação horrível de medo e impotência, como se fosse impossível acordar bem no outro dia tomava conta dela. Seu único desejo era desaparecer completamente, ou pelo menos conseguir dormir e esquecer aquele aperto no peito por um tempo. Não sabia de onde vinha aquele medo todo, não poderia ser apenas pelas provas. Também não sabia por que não tinha estudado. Não tinha lágrimas nos olhos, não tinha sono, tudo que ela tinha era um sentimento de desgraça sem motivo aparente.
Deitou-se novamente na cama, virada para o lado do computador. Pensou em ligá-lo quando começou a chorar. Aquele medo, de onde vinha? Medo de tudo, até do computador que estava no seu quarto há mais de dois anos. Medo da escola, medo das pessoas, medo de amanhã. Fechou os olhos e parou de pensar. Naquele momento surgiu um novo medo: o medo de descobrir o motivo de tudo aquilo. Concentrou-se na sensação de calor que o choro provocava no seu rosto, até não pensar em mais nada. Dormiu.
O sol já havia tomado conta do quarto dela quando acordou. Passou a mão no rosto, notando o suor. Estava descoberta, mas os raios pareciam apontar diretamente pra ela e o calor era imenso. Clara respirou fundo, fechou os olhos, esticou os braços e as pernas e se levantou para ir tomar banho. Já no chuveiro tremeu de medo ao perceber que com certeza estava algumas horas atrasada. Seu quarto ficava iluminado apenas à tarde. Mas já estava no banho então terminou o ritual de limpeza com cuidado.
Enxugou o corpo com a toalha branca, enrolou-se e saiu. Olhou para o quarto estranhando o silêncio. Ela estava calma, a casa estava calma. E isso era no mínimo inédito. Saiu do quarto vestindo apenas a toalha e isso também era novidade por ali. Caiu no sofá da sala, colocando a mão no peito. Alguma coisa estava acontecendo. Seus pais deveriam tê-la acordado, a escola deveria ter ligado pra perguntar o motivo da falta. Lembrou-se da noite passada, da insônia e do medo. Como poderia estar tão calma agora?
Sua teoria sobre o motivo dos esquecimentos tinha falhado. Algo sem importância não causaria aquela confusão toda da noite passada. Mas agora o sentimento era outro. Ela pensou em se levantar do sofá e ir até o quarto dos pais, o que seria inútil, pois com certeza eles não estavam lá. Se estivessem, teriam-na acordado. Clara fechou os olhos e tentou lembrar daquilo que deveria estar escondido em algum lugar dentro de si. Foi até a janela e não viu o carro. Provavelmente não estavam lá cedo, quando ela precisava acordar. Também não havia nenhum bilhete, ou seja, alguma parte do seu cérebro escondeu as informações sobre o paradeiro dos pais.
Foi até o quarto deles, que estava arrumado. Olhou no armário: meio vazio e lá em cima não tinha mala nenhuma. Eles viajaram, ela não sabia pra onde nem o motivo, nem se havia um motivo em especial; mas era a única explicação. Isso poderia significar que não tinha acontecido nada demais em relação a eles, já que ninguém viaja e deixa uma adolescente sozinha se não estiver tudo em ordem. O colégio poderia ter ligado sem conseguir acordá-la do sono pesado. Parecia tudo relativamente normal, além do fato de estar de toalha no quarto dos pais numa terça-feira à tarde.
Já vestida, Clara decidiu comer alguma coisa. Sua boca estava amarga e até então ela não tinha notado as náuseas. Isso tudo poderia ser simplesmente uma intoxicação alimentar associada à tensão pré menstrual, pensou. Correu até o calendário e concluiu que, definitivamente, não estava na época de ter tpm. Foi aí que uma possibilidade assustadora de explicação lhe surgiu: gravidez. Pegou o telefone e ligou para o namorado:
- Oi.
- Oi, Clarinha. Como você tá? – ele perguntou num tom dramático.
- Muito estranha, mas por que você perguntou isso?
- Ué, Clara, não tem muito o que dizer nessas horas. Desculpa pela pergunta, eu sei que é meio boba, mas eu realmente fico meio perdido... Você quer que eu vá até aí?
- Aconteceu alguma coisa? Porque eu não sei mesmo, é sério, eu to meio estranha, meio perdida, to passando mal, eu to grávida? Você sabe o que foi? E você não perguntou por que eu não fui à aula, então você sabe...
- Clara, o que ta acontecendo? Eu não to entendendo nada. Que história é essa de grávida? Amor, eu vou aí pra gente conversar.
Desligaram o telefone e ela sentiu-se mais confusa ainda. Ele sabia o que aconteceu com ela e pelo jeito não era gravidez. Se isso era uma conclusão boa ou não, ela não sabia. Poderia ser pior ainda. Esperou no sofá até ele chegar, evitando tirar mais conclusões precipitadas.
- Meu amor. – Ela recebeu logo na entrada um abraço forte.
Sentaram-se no sofá, calados. Ele tentou deitá-la no colo, mas ela não quis.
- Por favor, me conta o que aconteceu comigo.
Ele se virou, olhando nos olhos dela. Passaram-se mais alguns longos segundos silenciosos.
- Clara, como assim?
- Eu sei que aconteceu alguma coisa porque desde ontem... Me fala, por favor, eu to ficando louca. Eu não sei o que aconteceu comigo, mas estou em desespero desde ontem!
Ele não sabia como dizer, nem que parte de tudo ela havia esquecido. Tinha medo de repetir palavras trágicas e mais medo ainda de vê-la realmente desesperada, como na outra vez. Não conseguia entender como ela não se lembrava daquilo. Pensou em levá-la ao médico antes de dizer, mas ela deveria estar se sentindo péssima.
- Clara, você tomou o remédio hoje?
- Que remédio?
Ele se levantou e foi até a cozinha, pegou o remédio e um copo com água. Ela ficou sentada no sofá. Quando o viu, bateu no copo, quebrando-o e jogou o remédio no chão.
- Não vou tomar isso se você não me disser o que está acontecendo.
- Você se lembra de ter passado mal no final de semana?
- Não.
- Você deveria ter tomado esse remédio e passou mal. Teve sérias dores de cabeça, mas combinamos que eu não contaria aos seus pais se você prometesse tomar direitinho. Por isso eles viajaram com calma e te deixaram aqui. Eu fiquei de vir todos os dias ficar com você o maior tempo possível.
- Pra que serve o remédio?
- Pra memória.
- Claro... mas isso é sério?
- O que exatamente?
- O que eu tenho.
- Não. Pode ficar calma.
Satisfeita com a resposta tomou o remédio. Passaram um dia estranho juntos, tentando esquecer o que tinha acontecido. Ele fez tudo certo, cuidou da namorada e não tocou mais no assunto. Ela tentou não pensar nisso até que seus pais chegassem.
Clara acordou assustada na madrugada. Ela tinha uma doença degenerativa no cérebro e tinha acabado de se lembrar disso. Lembrou-se de crises horríveis e de que há muito tempo não tinha nada assim. Começou a chorar quando as cenas passaram pela sua cabeça, cenas que a doença não tratou de apagar. Não entendia como e por que tinha se lembrado de tanta coisa naquela hora e não parava de pensar nas suas possibilidades de futuro. Não tinha boas expectativas e sentia que estava para piorar. Todas aquelas imagens terríveis mostravam que a vida dela não poderia melhorar. Ficou horas sentada no sofá chorando e pensando. Não era isso que ela queria viver pra sempre.
Seus pais voltaram de viagem em seguida. Duas mortes inesperadas acabaram com suas vidas. Sentiam-se culpados. O namorado sentia mais ainda.
Saturday, May 05, 2007
Wednesday, April 04, 2007
Dan: To do what?
Alice: Leave me...
Dan: I am not going to leave you, o totally love you! What is this?
Alice: Please let me come. I wanna be there for you. (...)
Dan: (...) I want to be alone.
Alice: Why?
Dan: To grieve, to think.
Alice: I love you. Why wont you let me?
Dan: Is only a weekend.
Alice: Why wont you let me love you?
Thursday, March 29, 2007
Quando a mãe perguntava se estava tudo bem, ele dizia que sim, tá tudo bem, na medida do possível. Ele não costumava se perguntar nada disso, nem fazer discursos sobre a parte sentimental da vida. Ele não era frio nem era meloso.
Certo dia, como todos os outros dias, Rafael acordou cedo e foi lavar a cara. Tentou lembrar se sonhou a noite, mas ele nunca lembrava mesmo. A namorada acordou logo depois e foi tomar um banho. Antes de sair do banheiro ele ouviu: "coloca um pouco mais de açúcar no café, por favor, meu bem".
Fez o café, com mais açúcar, mas não reparou na diferença do café de sempre. Colocou os pães na mesa, a manteiga, o queijo. Procurou coisas diferentes, já que tinha visita. Descascou um abacaxi e esperou a mulher. Ela estava demorando, então ele foi se vestir pra não se atrasar.
Sentaram na mesa. Ela experimentou o café, com um sorriso sutil. Ele tomou mais café e cortou dois pães. Ofereceu pra sua namorada o prato com abacaxi. Ela recusou dizendo que abacaxi lhe deixava com muitas aftas, lembra? Ele disse que não e comeu algumas rodelas de abacaxi pra evitar o desperdício. Ela pegou um pão cortado e comeu, com manteiga.
Deu um beijo na mulher ia saindo. Pediu pra ela comprar alguma coisa pra comer no almoço, já que almoçariam juntos. Algo que ela gostasse bastante. Ela disse que sim, sorrindo, feliz com a preocupação dele. Barrou Rafael na porta, dando um beijo quente de café. Desejou bom dia e sorriu. Ele deu um sorrisinho e saiu pro trabalho.
Ela terminou de comer, arrumou a mesa, lavou a louça, arrumou e passou um pano na casa e colocou algumas roupas na máquina de lavar. Foi ao banheiro, organizou-se e saiu pra comprar o almoço. Saiu pensando em algo que ele também gostasse e que fosse um pouco além do almoço normal. Ela não lembrava de nada especial. Comprou, feliz, os ingedientes do que ela sabia fazer de melhor. O mercado ficava na quadra ao lado. Foi atravessar a rua e tropeçou, deixando umas coisas caírem. Levantou e foi recolher as compras. Ouviu uma buzina, o carro bateu bem de frente com ela, que morreu na hora. O socorro chegou e ela não foi identificada. Os documentos ficaram no apartamento, já que era ao lado.
Rafael chegou em casa. Abriu a porta, entrou. Tirou a camisa, foi ao banheiro, lavou o rosto. Olhou no relógio, tinha duas horas de almoço. Demorou um pouco pra ele se lembrar que a namorada deveria estar ali com o almoço pronto e que por isso ele tinha voltado ao invés de almoçar na rua. Mas não tinha ninguém em casa. As coisas dela ainda estavam no quarto, talvez do mesmo jeito que estavam quando ele saiu. Ou não, a cama parecia arrumada. A cozinha estava limpa, não tinha sinal de começo de almoço. Ligou para o celular dela, que tocou ali do lado do telefone. Olhou no relógio, ainda tinha uma hora e 40 minutos. Ligou pra casa dela, a irmã pensou que ela estava com ele. Ele desceu, pra perguntar ao porteiro se saiu uma moça de cabelo até o ombro, escuro, traços normais? O porteiro disse que saiu, mas fazia tempo. Rafael já ia subindo, quando o porteiro o chamou de volta, dizendo que tinha acontecido um acidente quase na porta do prédio, com uma moça, mas que ele não sabia se era ela.
Chegou no necrotério e reconheceu o corpo machucado da sua namorada. Ele ligou pra cunhada e não sabia como contar, então contou na lata mesmo, com uma voz um pouco tremida. Logo os familiares apareceram e cuidaram de tudo, chorando. Rafael tinha que voltar ao apartamento pra buscar as coisas dela, os documentos. Olhou no relógio e foi, voltando rapidinho com os documentos em mãos.
Decidiu voltar pra casa e tomar um banho, pra depois decidir o que fazer. No chuveiro, começou a chorar por ter visto dois coraçõezinhos de silicone grudados na parede. Ela deveria ter colocado mais cedo. Seu coração doeu, de uma forma bem estranha. Ele decidiu dormir, pra ver se passava. Ligou pro trabalho, conversou com o patrão que desejou meus pêsames. Tirou os lençóis que estavam com o cheiro dela. Ele tinha que superar isso, rapidinho. Então, parou de pensar nessas coisas e dormiu até ligarem pra avisar do velório.
Ele chegou no cemitério, no final do enterro, pra tentar confortar os parentes dela. Perdeu o velório, dizendo que queria lembrar dela viva. Assim, ele via só o caixão fechado, descendo e sendo enterrado. Jogou flores brancas, abraçou as pessoas, chorou e foi embora.
No outro dia, recebeu a ligação da mãe, dizendo que entendia ele não ter ligado pra ela, que ele deveria ter ficado muito abalado e por isso não lembrou de detalhes. Ele disse que ia superar, que não tinha mesmo o que fazer. A mãe perguntou se ele queria que ela passasse um tempo na casa dele, ele disse quenão precisava. Passou o dia em casa, descansou, superou.
Rafael acordou cedo e foi lavar a cara. O coração doía um pouco, mas ele precisava trabalhar. Tomou café e comeu pão. Pegou o metrô, trabalhou, almoçou num restaurante 'bom e barato' que tinha ali perto. Voltou pra casa. Entrou, foi ao banheiro, lavou o rosto. Sentou no sofá e pegou o telefone. O telefone tocou, ele desligou. Ela estava morta. Sua namorada estava morta. Sentiu um aperto, um vazio ali dentro. Ligou a televisão, passou os canais. Não sentia sono, mas estava cansado. Foi deitar mesmo assim. Logo dormiu.
Friday, March 09, 2007
O cara é o último. Trocam um sorriso melancólico antes do abraço mais forte de todos. Forte, longo e intenso. Os dois se derramam em lágrimas, em meio a soluços e beijos. Sem palavras, que seriam desnecessárias. Todos os outros, enfim, soltam o choro guardado e se abraçam.


