Wednesday, November 29, 2006

Meia noite. Ela chega em casa exausta (psicologicamente) e um pouco alterada, depois de tomar vinho. Por algum motivo, as coisas de sempre vêm fazendo um efeito maior e pior que o normal. Que coisa! Ela deveria estar acostumada! Mas ela não aguenta mais brigas, indelicadezas, nada assim. E ela não tem mais coragem de pedir ajuda ou de confessar que está triste. Não quer que ninguém a veja chorando. E mal sai de casa, alguém faz ou diz alguma coisa extremamente imbecil. O jeito é não sair. E se ela fica sozinha, aquela sensação de sempre piora. Fica lá, no cantinho, desejando um abraço e nada de palavras. Mas não tem coragem de pedir, ninguém a não ser um desconhecido passando na rua poderia fazer isso com perfeição. E o pior é que quando está andando na rua, quase correndo, segurando pra não chorar... fica pensando em como seria ganhar um abraço ali, sem motivo, sem palavra. E depois continuar andando, como se nada tivesse acontecido, mas mais aliviada. E corre, e chega, e não queria ter chegado, nem sabe direito o que quer, mas não é nada que tem ali, na sua casa. E quando lembra que lá tem alguém, para na porta pra arrumar o rosto e não ter que responder se estava chorando. Entra em casa sorrindo e brincando, com perfeição. Ela sabe muito bem distrair as pessoas, pra não perguntarem nada sobre seu estado psicológico. Além do mais, ninguém quer realmente saber. E se ficarem sabendo, dirão coisas ridículas, tendo como ponto de vista o próprio umbigo.
Enfim... Chegou em casa, por volta de meia noite. Pensando em tudo que dava pra pensar, sem ordem, sem lógica, com toda lógica do mundo, toda desajeitada e descontrolada como sempre. Caiu na cama com um peso maior, bem maior que o do corpo. Não conseguiu mais segurar, mas tudo bem, estava sozinha no quarto. Mas, psiu!, não podia fazer barulho. É melhor não chorar. Precisava de algo... Precisava ouvir uma voz. Mas estava sozinha. Aliás, tinha uma pessoa, mas a última que quereria saber da sua tristeza. Resolveu ligar pra alguém com quem não falava há muito tempo, alguém que não se importasse nem um pouco, alguém que não perguntasse muito e que não ficaria triste por ela. Achou! Ela, definitivamente, era praticamente insignificante pra ele. Apesar dela desejar muito tê-lo como amigo. Pensou... não está tão tarde assim. Ligou.
-Oi.
-Oi. Quem é?
-É a Violeta.
-Violeta... que violeta?
(confirmada a sua insignificância, prosseguiu)
-É a que fala com você pelo msn...
-Violeta Baudelaire?
-É...
-Não é não!
-É que a minha voz fica estranha mesmo pelo celular... Você tava dormindo?
-Tava. Cheguei de Caldas hoje. Você tá bem? Olha... a minha bateria tá acabando, então se desligar...

Desligou. Sozinha novamente, lembrou que poderia abafar o grito desesperado com as cobertas.

Tuesday, November 21, 2006

Saiu da escola, sorrindo claro, como sempre. Nada demais, só mais um dia de aula, ficar em casa, estudar e tals... O de sempre.
Ela nem precisava mais pensar pra andar, o corpo ia sozinho, tudo bem mecânico mesmo.
E isso doía incrivelmente. Mas era normal.
O problema é que ia ficando mais difícil. Ela tentava forçar, mudar a cara de tristeza fazendo caretas bobas. Ela sabia que tinha muita gente passando por ela, mas ela não via, só conseguia olhar pra baixo. Afinal, só precisava ver o chão mesmo, pra não tropeçar. Os olhos quase fechados de cansaço e falta de vontade eram completamente justificáveis, já que a luz do sol tinha esse efeito mesmo. Êpa! O dia tava nublado... De qualquer forma, tinha luz, muita luz.
Olhando pro chão... degrau, desce, calçada, asfalto, pula a divisória, brinca, grama. Grama... tudo que queria era cair nessa grama, jogar todo aquele peso no chão, o fichário, tudo, sem medo de estragar... Cair, só cair naquela grama verde e convidativa... Um pedacinho curto de natureza que passou pra asfalto. Ai ai, vontade de voltar e cair, só cair mesmo, passar a mão na cabeça, respirar... Talvez ficasse mais fácil voltar a andar depois. Mas as pessoas achariam estranho. Ou pior, poderiam falar com ela. Anda, tá chegando.
Vontade de chorar... Ai! Olha que casa bonita... queria mudar de casa. Mudar de casa... mudar qualquer coisa mesmo. Só pra mudar. Mudar o caminho de volta, mas isso poderia torná-lo mais longo. Eita! O cara no carro tá olhando! Apressa o passo, anda, olha pro chão.
Chega...
Chegou, que bom, agora poderia descansar.
Chegou, droga, não aguentava mais isso.
Come, chatice, até a comida é sempre a mesma. Okay, sejamos moralistas, tem gente que não tem o que comer. Deve-se agradecer. Come.
E agora?
O de sempre.

Wednesday, September 13, 2006

Ela pegou a bolinha de silicone e jogou contra a parede. A bolinha bateu no chão e voltou pra sua mão.
- Nada. Eu não tenho feito nada por mim. Não pelo meu presente. Dezesseis anos de investimento num futuro completamente incerto.
A bolinha roxa e transparente brilhava à medida que passava pelos raios de sol, que invadiam o quarto pelas frestas da persiana.
Ela jogava com força na parede pouco distante. A bolinha hora brilhava, hora permanecia fosca. E pingava do chão até as mãozinhas brancas e sensíveis da menina sentada.
Mais uma vez ela jogou a bolinha contra a parede, pensando no tio. Ele é relativamente novo. Com seus 38 anos ainda não terminou os estudos. Faz milhares de planos como um adolescente. Decidiu que vai voltar a estudar e mudar sua vida. Está bastante animado. Mas ele não sabe que tem apenas três meses de vida, de acordo com as estimativas do médico. Ele também não sabe que seu pai, que morreu na última sexta feira, havia desistido da vida pra não ver o filho sendo enterrado.
A bola bateu na parede, pingou no chão e voltou pras mãos.
- Eu gostaria de saber a verdade se estivesse no lugar dele. Assim eu poderia viver intensamente pelo menos três meses dessa existência. Ele vai morrer sem viver direito. Ele vai morrer pensando no futuro que não viverá e o presente terá sido ignorado.
Ela agarrou a bolinha com raiva. Abriu a mão, olhou, apertou com força e jogou na parede. A bola bate, pinga e volta.
Seria mais fácil adotar as crenças da mãe. Acreditar em vida no paraíso após a morte. Assim ela poderia continuar pensando só no futuro, como é obrigada a fazer. Mas não sofreria por isso. Talvez seja mesmo mais fácil não saber a verdade.
Ela deitou, afundou na cama. E a vida pesou no seu corpo frágil. Ela sentia um nó na garganta, mas ignorava.
A bolinha pingou no chão várias vezes até parar.
A garota pensava no que tinha vivido, nas suas dores, nos seus arrependimentos e via que aquilo tudo infelizmente vai permanecer dentro dela. Seu corpo pesa mais. Ela vê o número de besteiras (número maior que o normal) cometidas por ela no passado. Será que num possível futuro ela vai se arrepender tanto assim do que faz hoje em dia? Ela já não se entrega mais às pessoas como antes. Ninguém sabe ouvir, é humanamente impossível entender a dor do próximo. Não há muita coisa pra se arrepender, quase nada. Ela se encontrava num estado deprimente de normalidade.
Uma dor horrível tentava consumir aquele coração. Necrosava primeiramente as partes mais sensíveis, caminhando para as mais fortes, seu sustento.
Ela pensava em todas as pessoas envolvidas nas suas dores e seu coração doía mais. Seu corpo afundando na cama, forçado por uma força não aparente. Ela sentia vontade de chorar, gritar e correr.
Sentou-se novamente na cama, respirando fundo pra não chorar e ter que enfrentar frases como: “Por que você está chorando?”; “Eu sei como é.”; “Eu já passei por isso.”; “eu vou te levar pra conhecer o que é vida ruim.”; “Vai estudar, tristeza é falta do que fazer”; entre outras besteiras que dizem nesses momentos. Deitou de novo.
Respirava fundo, começando a entender uma questão importante pra sua vida: isso é se tornar adulto. Seu coração, psicologicamente, vira uma carne morta, necrosada, biologia. Você para de sentir...
E antes de terminar seu pensamento, de concluir que isso estava acontecendo cedo demais com ela, sua mãe entrou no quarto dizendo:
-Que quarto escuro! Vai estudar! Suas notas estão baixas e você vive pra isso: estudar! Não vou ficar discutindo.
Ela se sentou, recuperou a bolinha que bate, pinga e volta. Ela sente suas pálpebras pesadas, mas não tem sono. Ela percebe em si o olhar frio que agora tomou conta do seu rosto. Olhar frio, morto, conformado, enjoado.
Voltou a estudar.

Tuesday, September 12, 2006

Ela saiu de casa super feliz com a notícia. Foi correndo contar pras amigas. Poderia fazer a primeira viagem sem um parente pra vigiar. Não conseguia conter a felicidade, a ansiosidade. Saiu pulando na rua. Olhou pros lados antes de atravessar. Foi saltitando, rindo sozinha. Caiu, quebrou o pé direito. Um carro virou a esquina rápido e atropelou a menina, que morreu instantaneamente.